2. Pelos Ermos Verdejantes

Taldor Fendeaço interrompeu os passos para lançar um olhar preocupado para o céu. Um sol pálido se fez notar no oeste por trás de nuvens cinzentas. Um vento frio soprou através dos cumes gramados, carregando um aroma bem familiar ao jovem anão: chuva. O tempo mudara novamente.

Era sempre assim naquela região, àquela época do ano. Não pela primeira vez, ele atravessava os ermos verdejantes em direção a Arnglar. O vilarejo não tinha qualquer atrativo, mas o apreço que desenvolvera por seus habitantes o tornavam um segundo lar.

Por seus cálculos, a viagem não duraria muito mais. Estava farto daquele território desolado e das chuvas diárias. Naquele momento, outra tempestade se formava sobre sua cabeça; precisava encontrar novo abrigo. Os temporais eram muito fortes, principalmente no verão, e seu camisão de cota de malha seria um chamariz perfeito para os raios mortíferos.

Correndo os olhos pela paisagem, sentiu-se perdido momentaneamente. Os ermos não forneciam pontos de referência e até mesmo um rastreador experiente, munido de um mapa ou dois, poderia se perder facilmente. Taldor não era um rastreador; estava longe de conhecer todos os caminhos. Ele tampouco confiava nos mapas dos Reinos Fronteiriços – estes jamais acompanhavam o ritmo vertiginoso com que reinos e cidades surgiam e desapareciam por ali. Contudo, dispunha de uma ferramenta útil que sempre lhe indicava para onde seguir.

Certificando-se da direção a tomar, Taldor forçou um pouco a memória e lembrou-se de um local situado não muito distante de onde se encontrava. Embora a idéia de abrigar-se naquele buraco não lhe agradasse, sabia não ter escolha. Lançando outro olhar preocupado para os céus, ele preparou suas coisas e aumentou o ritmo das passadas, esperando atingir o abrigo antes que a tempestade o atingisse.

* * * *

O poente refletiu na pedrinha erguida contra o céu. Recostado no tronco de uma árvore frondosa, Meldeau Desbravaterras admirava seu amuleto e descansava de uma caminhada que considerara longa demais. A visão da pedra polida girando diante de seus olhos cor de mel sempre relaxava o jovem halfling.

Magnífica. Encantava-se com o branco que jamais encardia e com o brilho sobrenatural emitido quando tocada pelos raios solares. Embora a pedra parecesse mágica, ele sabia não haver nela nada de extraordinário – nada além de sua própria beleza e origem. A imagem da lagoa sagrada invadiu sua mente, trazendo lembranças da terra natal. Há quanto tempo partira? Não lembrava bem.

Desviou o olhar para o mar de colinas que se estendia por toda a sua volta. Aquela era uma terra de ninguém, sem atrativos e sem vida. Não havia nada ali além de grama. A árvore sob a qual se encontrava poderia muito bem ser a única num raio de muitos quilômetros. Sentia falta das flores e das árvores da floresta, sentia falta da lagoa. Estava muito longe de casa.

Um farfalhar sobre a cabeça afastou a saudade. Colocou o pingente rústico em volta do pescoço, escondendo a preciosa pedra sob o corselete de couro batido, e olhou para o topo da árvore. Viu um vulto mover-se com agilidade por entre os galhos para cair de pé ao seu lado. Sorriu como sempre fazia diante das estripulias acrobáticas de seu companheiro de viagem.

Rhístel Sanguélfico retribuiu o sorriso com uma piscadela. Sabia que o halfling divertia-se com seus reflexos, ainda que não compreendesse o porquê. Considerava natural a graciosidade de seus movimentos, algo inerente à herança élfica e próprio de seu corpo esguio e diminuto. Acariciando os cabelos espetados que caiam sobre as orelhas ligeiramente pontiagudas, mirou o céu cinzento com olhos negros inteiramente humanos.

Erguendo-se em silêncio, Meldeau olhou para o outro, aguardando o parecer. O rosto de feições delicadas e escuro como obsidiana fusca estava impassível. Quando o silêncio se prolongou, achou que deveria tomar a iniciativa.

– E então, Rhís? – indagou com sua voz estridente.

– Tinha razão, a tempestade vai ser forte. Precisamos nos abrigar. Vi algumas ruínas ao norte.

– Eu te disse, não disse? Os pêlos de meus pés nunca me traem! Sempre posso contar com eles para evitar coisas ruins!

Rhístel encarou a figura de cabelos encaracolados e sorriu; achava curioso que tanto as madeixas quanto os tufos de pêlo nos peitos dos pés tivessem a mesma cor flamejante.

– Quanto aos seus pêlos eu não sei, mas é certo que seus pés são bons para tirá-lo de enrascadas, Mel. – disse, fazendo troça.

Meldeau sorriu, corando de vergonha. Percebera ali a referência velada à partida apressada de Fortenovo, palco da mais recente encrenca provocada pela curiosidade quase infantil. O olhar do companheiro estava fixo sobre ele, como se esperasse que dissesse algo. Pelo visto, Rhístel ainda estava disposto a tentar entender o que, exatamente, havia acontecido naquela aldeia.

– A que distância as ruínas estão? – questionou, mudando o rumo da conversa.

– Não muito longe. Partindo agora, chegaremos antes que a água caia.

– Você não respondeu à pergunta. – um sorriso irônico assomou no rosto redondo.

– Nem você.

O halfling franziu o cenho.

– Desculpe, não percebi que havia feito uma.

– Não diretamente. –  o tom de voz soara subitamente sério.

Meldeau olhou demoradamente para o norte, fingindo-se de desentendido. Soprando algo como “vamos indo então”, ele começou a caminhar apressadamente, sem olhar para trás.

Suspirando e seguindo no rastro do companheiro, Rhístel imaginou quando a razão da fuga de Fortenovo lhe seria revelada. Aborrecia-se com a constante esquiva do assunto; fosse o que fosse, achava-se no direito de saber, afinal, também fora envolvido. Respeitaria o silêncio do halfling por ora, então tentaria novamente. Tentaria quantas vezes fosse necessário, mas descobriria em que confusão Meldeau se metera daquela vez.

Continua…

Uma palavra sobre a ambientação desta série

As histórias ocorrem no mundo fantástico de Faerûn, descrito no cenário de campanha de RPG Forgotten Realms (Reinos Esquecidos). Elas também foram inspiradas em diversos módulos de aventuras criados para o jogo Dungeons & Dragons (Masmorras e Dragões). Todos os direitos sobre estas marcas pertencem à editora Wizards of the Coast, não sendo minha intenção violá-los. Estes textos são uma ficção de fã (do inglês, fan fiction ou FanFic) e não objetivam qualquer lucro.

Para saber mais:

  1. Capítulo Anterior – A Busca
  2. Reinos de Aventuras, histórias de fantasia: onde explico o modo como pretendo publicar esta série no blog.

Continue a escrever aqui.

3 respostas para 2. Pelos Ermos Verdejantes

  1. L.K. Otero disse:

    Por que você tem escondido tudo isso de mim?
    – Tá publicado na internet, sua tonta, não tem nada escondido!

    Parabéns, Escriba! Você escrebe muito bem!

    • Longe de mim considerá-la tonta, srta. Otero. Acho que és apenas… distraída. Heh…
      Obrigado pelos elogios e pela homenagem em sua assinatura.

      Espero que continue me acompanhando aqui… e pela vida afora também!
      Thousand kisses!