3. Encontro Inesperado

Taldor encontrou as ruínas da torre momentos antes da tempestade desabar ruidosamente. Todavia, para seu desgosto, o local não fornecia proteção. A única alternativa era abrigar-se sob o outeiro onde a antiga construção fora erigida. Não desejava fazê-lo, mas percebeu que não tinha escolha quando os primeiros raios cortaram os céus.

Circundando a encosta, ele procurou pela pesada pedra que bloqueava a passagem subterrânea. Surpreendeu-se ao deparar com um grande buraco no terreno; para além dele, uma escuridão nada convidativa. Fragmentos cobertos pela grama revelavam que a pedra fora destruída.

Gotas de chuva lhe atingiram o corpo. Cauteloso, atravessou a entrada. Quando seus olhos de anão se ajustaram à escuridão, viu, em tons de cinza, uma câmara vazia e empoeirada. As paredes não eram naturais, mas cortadas; arabescos despedaçados e pinturas desgastadas sugeriam que o lugar já fora decorado cuidadosamente. Três portas de pedra maciça assomavam à esquerda, à direita e diretamente à frente.

Escolheu um canto escuro e sentou-se defronte às portas, mas não sem antes cuspir duas vezes no chão, como sempre fazia em lugares como aquele. Ficou ali por um bom tempo, em silêncio, escutando os sons vívidos da tempestade que castigava as colinas do lado de fora. Tentava ignorar o que sabia sobre aquele local. Concentrou-se nas runas incrustadas em seu martelo de batalha e logo lembranças melhores vieram à mente.

Um som como o de pedras rolando soou acima do barulho da chuva, sucedido por um pesado baque. Algo caíra pela encosta íngreme do outeiro. Taldor pôs-se de pé em prontidão, o martelo firme nas mãos.

– Erra-me, Brandobaris! Esfomeado, encharcado e agora enlameado!

A voz de criança atraiu-o para a entrada a passos lentos. Relaxou o aperto no cabo de sua arma. Um raio cruzou os céus e o brilho fugaz delineou uma sombra diminuta. Ainda tentava assimilar o que vira, quando a voz infantil falou novamente:

– Amigo… seja quem for, saiba que sou um amigo. Estou fugindo da tempestade, é só.

Havia algo familiar naquela voz e, por um instante, pensou que talvez não fosse realmente de uma criança. Novamente apertando a haste do martelo, firmou os pés no chão e berrou:

– Mais perto, estranho. Venha devagar e deixe ver tua fuça!

Uma lamparina foi acessa. Através da entrada, a luz espantou as trevas e revelou o inesperado visitante: como imaginara, tratava-se de um halfling – particularmente esguio e diminuto, era um exemplar curioso daquela raça de seres pequeninos que pareciam sempre estar de bem com a vida.

Por outro lado, Meldeau surpreendeu-se com a figura atarracada e robusta, trajada numa cota de malha bem cuidada e portando um martelo de aparência letal – trazia, ainda, uma pequena mochila às costas. Já vira muitos anões de perto, mas aquele era estranho: não tinha barba e mantinha os cabelos negros bem rentes à cabeçorra. Decidiu tomar a iniciativa ao notar que os dedos poderosos aliviaram a tensão em volta da haste de sua arma. Apresentou-se com uma mesura. A resposta veio seca:

– Fendeaço… Taldor Fendeaço.

O anão não esperava que o pequenino criasse problemas. Contudo, não deixara de notar que ele trazia uma pequena maça presa à cintura e permaneceria alerta até que as palavras pacificadoras fossem proferidas, como era de praxe.

Silêncio.

– Uma de duas: ou tua intenção aqui não é boa, ou é tua primeira viagem por estas bandas.

As palavras deixaram Meldeau desconcertado. Esperava uma atitude mais receptiva. Estava apático, sem saber o que fazer ou dizer. Piscando, inclinou ligeiramente a cabeça, num gesto genuíno de incompreensão.

Taldor julgou que a segunda opção era correta e, com voz grave, falou sobre um velho costume da região: durante as tempestades elétricas, todos os que buscavam abrigo em um mesmo local firmavam uma trégua; não poderia haver qualquer luta até o fim do temporal. Aquele era um acordo silencioso, mas havia quem preferia formalizá-lo com as palavras adequadas. O anão era um deles.

– Um costume muito sensato, se me permite dizer. De acordo, então – disse o halfling; sorrindo, lembrou-se das palavras exatas que o outro acabara de revelar. – Paz na tempestade?

A trégua foi confirmada. O sorriso de Meldeau se alargou, mas desapareceu quando este notou um movimento nas sombras próximas. Quase se esquecera de Rhístel! Por um instante, imaginou o estrago que o grande martelo de batalha faria ao seu pequeno crânio caso seu portador se sentisse tapeado ou ameaçado. Precisava ser cuidadoso agora, pois sabia o efeito que o companheiro causava nas pessoas à primeira vista.

– E… Esqueci-me de dizer-lhe algo, amigo… Taldor? Acontece que não estou viajando sozinho.

Como que reagindo àquelas palavras, um vulto esguio e encapuzado saltou das sombras à sua esquerda, aproximando-se da luz irradiada pela lamparina.

– Paz na tempestade.

As palavras soaram como um sussurro, mas o anão as compreendeu. Sobressaltado pela súbita aparição, agora estava mais alerta do nunca. Encarou a dupla, o olhar desconfiado ora sobre um ora sobre outro. Confirmou a trégua. Então o novo visitante removeu seu capuz demoradamente e o encarou com olhos de negrume. Mas não foram estes que se destacaram e sim os cabelos prateados, quase brancos, e a pele escura como obsidiana. Por um instante, não pôde acreditar no que via, mas as orelhas pontiagudas não dava margem a dúvidas.

Drow – disse com desprezo, erguendo o martelo ameaçadoramente. – Que trapaça é esta?

Meldeau sabia ser ele o interpelado, ainda que o outro encarasse Rhístel fixamente. O amigo tinha o semblante severo; seu corpo permanecia imóvel, as mãos caídas ao lado do corpo – a esquerda estava próxima ao cabo do florete cuja bainha trazia presa à cintura. A tensão entre ambos era palpável e ele precisava fazer algo; ergueu os braços de modo apaziguador e sorriu nervosamente:

– Não há trapaça. Este é Rhístel, um bom amigo. Conhecemo-nos há muito tempo e asseguro-lhe que é de confiança.

Drow não são de confiança! Não passam de monstros assassinos! Só um tolo confiaria numa raça de cães traiçoeiros… ou nos que lidam com eles!

– Não precisamos de sua confiança, apenas de um abrigo. – Rhístel falou em tom sombrio.

Aquela atitude amargurada nunca facilitava as coisas, mas como poderia censurá-lo? Sequer ousara imaginar as dificuldades que o companheiro enfrentara por conta de sua ascendência. Ainda assim, não era preciso provocar uma luta inútil.

– Ouça-me, Taldor… amigo… entendo como se sente, acredite. Também me senti assim certa vez, para minha vergonha. Mas Rhístel já me deu provas suficientes de seu caráter e posso lhe dar minha palavra que ele é de confian-

– A palavra dum halfling estranho e desonesto! Bá!

– Ora! Já que minha palavra não é o bastante, que tal ao menos honrar a sua própria?! Rhístel invocou a trégua!

Uma bofetada não deixaria o anão mais espantado. A atitude indignada e atrevida do pequeno o fez sentir-se estúpido. Cedera ao mesmo preconceito odioso que o levara a partir de sua terra natal. Mas pelo machado de Gorm, aquele era um drow! Conhecia as histórias hediondas sobre tal raça. Todavia, comprometera-se com a trégua e deveria manter sua honra ou não seria digno de seu nome.

Taldor abaixou o martelo e fulminou a dupla de estranhos com o olhar; sem se virar, afastou-se para um canto escuro. Respeitaria a paz na tempestade pelo tempo que esta perdurasse. Se fosse preciso, lidaria com ambos mais tarde.

Suspirando aliviado, o halfling indicou um lugar bem afastado para o companheiro. Seguindo nos calcanhares de Rhístel, pensou que este sempre teria problemas ao lidar com os outros enquanto cultivasse a fala audaciosa, os métodos esquivos e a mania de esgueirar-se pelas sombras. E antes de sentar-se, não pôde evitar um comentário atrevido:

– E para o seu governo, Taldor Fendeaço, Rhístel é apenas MEIO drow.

Continua…

Uma palavra sobre a ambientação desta série

As histórias ocorrem no mundo fantástico de Faerûn, descrito no cenário de campanha de RPG Forgotten Realms (Reinos Esquecidos). Elas também foram inspiradas em diversos módulos de aventuras criados para o jogo Dungeons & Dragons (Masmorras e Dragões). Todos os direitos sobre estas marcas pertencem à editora Wizards of the Coast, não sendo minha intenção violá-los. Estes textos são uma ficção de fã (do inglês, fan fiction ou FanFic) e não objetivam qualquer lucro.

Para saber mais:

  1. Capítulo Anterior – Pelos Ermos Verdejantes
  2. Reinos de Aventuras, histórias de fantasia: onde explico o modo como pretendo publicar esta série no blog.

Continue a escrever aqui.

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