O pesadelo das revisões constantes

Tornar-se um escritor não é trivial. Escrever e ler com regularidade é essencial, obviamente, mas não é o bastante. Para que o aprendizado seja menos árduo, é preciso saber identificar os obstáculos ao longo do caminho e as maneiras de superá-los. Ainda que este seja um desafio pessoal, certas dificuldades – algumas maiores que outras – parecem ser universais: bloqueios inesperados, falta de inspiração, indisponibilidade de tempo, o abismo entre uma boa ideia e uma boa história, etc. Particularmente, eu luto para derrotar dois destes monstros: as revisões constantes e o medo de ser medíocre.

A revisão é imprescindível. Entre outros benefícios, ela permite identificar e corrigir falhas técnicas. Contudo, antes de revisar um texto, este deve estar completo, nem que seja na forma de um primeiro rascunho. Quando a revisão é feita de outra forma, isto é, sobre um texto inacabado (engavetado ou esquecido), pode ocorrer do autor focar a técnica em detrimento da mensagem ou desviar-se completamente da ideia original. Muito vago? Deixe-me tentar exemplificar.

Eu tive uma ideia para um conto e escrevi o primeiro rascunho por completo. Com a revisão, eu identifico erros ortográficos e gramaticais, trechos mal escritos, orações longas demais, etc. Além disso, surgem novas ideias para aprimorar a própria história – em outras palavras, durante a revisão eu acrescento, modifico ou excluo trechos do texto.

Tais alterações não seriam um problema, pois, por mais que as fizesse, eu já teria os principais pontos do conto em mãos e saberia aonde este deveria chegar. Contudo, ao revisar um texto inacabado corre-se o risco, por exemplo, de uma história ser modificada infinitamente; assim, uma miríade de universos alternativos nasceria e morreria prematuramente sem que o autor jamais concluísse seu trabalho. Ainda muito confuso?

Eis outro exemplo, mais simples: eu tenho alguns contos inacabados separados em arquivos digitais onde coexistem diversas cópias pós-revisões; ao ler as versões 1 e 10 de, digamos, A Loura do Pontilhão, o leitor jamais imaginará que a última é fruto de 9 revisões anteriores de um rascunho inacabado – e que assim permanece até hoje.

Ao jamais revisar um texto antes de concluir um rascunho completo, como supracitado, eu superei esta barreira. Este hábito funciona bem ao escrever textos pequenos, como contos e artigos para o blog. Mas e quem está escrevendo um livro? Ainda não me atrevi a tanto, então eu não posso dizer com segurança. Contudo, imagino que uma boa prática seria:

  1. Traçar um rascunho geral e pouco detalhado de todo o livro, dividindo em partes.
  2. Dedicar-se ao desenvolvimento do rascunho de toda uma parte.
  3. Tendo concluído aquela parte, revisá-la algumas vezes antes de seguir em frente.
  4. Repetir os passos 2 e 3 até que todo o livro tenha sido escrito e revisado.
  5. Com o livro concluído, partir para uma revisão geral.

Talvez não seja o método ideal para desenvolver um livro completo, mas é o que eu adotaria se fosse louco o bastante para fazê-lo neste momento. Eu recomendo que os aprendizes busquem conselhos de autores conceituados ou de escritores mais experientes.

Tenham em mente que aqui sou tão aprendiz quanto qualquer um. Ao compartilhar minhas dificuldades e o modo como lido com estas, eu espero auxiliar outros aprendizes de escritor (ou aspirante a autor, como ouvi outro dia num podcast). Espero, ainda, que outros compartilhem suas dificuldades de modo que possamos todos aprender um com os outros.

E como este texto já está relativamente grande, eu falarei sobre o medo de ser medíocre em outra oportunidade.

Para saber mais:

  1. Metodologia 5+10: 5 regras e 10 orientações flexíveis que busco seguir em meu caminho para tornar-me um escritor.
  2. Os primeiros passos da jornada: onde devaneio sobre o tempo, o desejo de escrever e dicas de escrita.
  3. Pare o mundo que eu quero escrever!: texto sobre minha labuta contra as distrações do cotidiano.
  4. Reconheça e enfrente os medos que impedem você de escrever: artigo curto, mas muito útil que compõe uma série excelente de dicas para escritores. Do excelente site Ficção em Tópicos. Recomendadíssimo!
  5. Escrever um livro – Cinco obstáculos a eliminar: tradução de um artigo em francês excelente; trata da inércia, do medo, da falta de tempo, da motivação vacilante e do comprometimento impreciso.

Continue a escrever aqui.

10 respostas para O pesadelo das revisões constantes

  1. […] O pesadelo das revisões constantes: algumas palavras sobre como identificar e superar este terrível obstáculo. […]

  2. […] O pesadelo das revisões constantes: um desabafo sobre este terrível obstáculo no caminho de um aprendiz de escritor. […]

  3. […] O pesadelo das revisões constantes: um desabafo sobre este terrível obstáculo no caminho de um aprendiz de escritor. […]

  4. B.Faria disse:

    Caro Escriba Encapuzado,

    Conheci seu blog recentemente, ainda não li todas as histórias, dicas e crônicas…

    Daqui um tempo será possível dar uma opinião mais concreta; tenho certeza que vou gostar. “Nunca se tem uma segunda chance de causar uma boa primeira impressão.” Eu tive essa boa primeira impressão ao ler sua resposta a L.K. Otero.

    Abraços!

    • T.K. Pereira disse:

      Aguardarei ansioso por suas considerações. Não deixe de visitar o blog de tempos em tempos para ler novos textos. Se quiser sugerir algum tema também, fique à vontade.

      Abração.

  5. Diego disse:

    Conhecer o processo de criação de outros escritores é realmente uma ótima maneira de se pensar sobre nosso próprio processo.

    Fico feliz que você curte o Ficção em Tópicos.

    Abs.
    Diego

  6. Diego disse:

    Acho que você tocou em um ponto bem importante com seu texto: a separação entre a parte criativa e a parte racional do processo de escrever.

    Assim como você, eu também prefiro escrever um rascunho completo com as ideias centrais que quero abordar em um texto. Deixo a edição e a revisão para depois. Acho que produzo mais e melhor assim.

    Mas não acredito em uma solução para todos os escritores. Cada um tem que descobrir o que funciona melhor para si.

    Obrigado por recomendar o Ficção em Tópicos no seu artigo. 😉

    Abs.
    Diego

    • Diego,

      Concordo quando diz que não há uma regra que se aplique a todos – não quando se trata de escrever um texto -, mas é sempre útil e inspirador ver como outros escritores (aprendizes ou não) lidam com suas dificuldades.

      Fico feliz que tenha gostado do texto e espero vê-lo por aqui mais vezes. E nem precisa agradecer pela recomendação, pois o Ficção em Tópicos é um dos melhores sites que já tive o prazer de visitar!

      Abraços.

  7. L.K. Otero disse:

    Adoro seus posts com dicas. São muito úteis para todos! Tanto para escritores, quanto para profissionais que lidam diariamente com a palavra. Obrigada, Escriba!
    – Post revisado 3 vezes antes da publicação.

    • Fico feliz em saber que minhas dicas ajudam outros aprendizes. Vindo de uma profissional do ramo do jornalismo, então, o elogio conta muito!

      E parabéns por revisar seu comentário antes de postar! Heh… continue acompanhando-me por aqui e comente sempre, pois, se todo apoio é importante, o seu é fundamental.

      Abraço apertadíssimo!