6. Há muito mais a temer…

Rarnar estava diante do ataúde de pedra. Enxergando claramente através da escuridão absoluta, os olhos amarelados contemplavam um cadáver inacreditavelmente bem conservado, envolvido por uma manta rústica. Reproduzido nesta, o emblema da maça-estrela respigando sangue identificava os restos mortais. Não havia dúvida de que realmente estava na Torre Alta.

A tumba não era tão grandiosa quanto descreviam as histórias de seu povo, nem estava repleta de tesouros, para o aborrecimento de seus subordinados – ambos esperavam ser recompensados pelo menos com alguma quinquilharia de valor. O pensamento divertiu Rarnar, pois ele sabia mais. As palavras do xamã ecoaram em sua mente: um grande achado te dará o respeito de toda a tribo. O Honorável Chefe da Tribo descendia de uma linhagem de guerreiros poderosos e orgulhosos; ele ficaria tremendamente satisfeito com a descoberta do corpo do Cavaleiro Sombrio, seu antepassado mais celebrado.

Chegar à câmara mortuária não fora fácil. As três portas de pedra não podiam ser abertas nem derrubadas sem as ferramentas adequadas. Um dia inteiro passara até que um caminho alternativo fosse encontrado: um buraco escavado há muito tempo entre as ruínas sobre o outeiro. Utilizando uma corda improvisada, esgueiraram-se por terra adentro. Uma vez dentro da tumba, não tiveram dificuldades em encontrar o lugar.

Rarnar rasgou o emblema e cogitou guardá-lo no bolsão de suprimentos, mas mudou de ideia e escondeu-o sob o corselete. Foi então que notou algo postado ao lado do cadáver, fazendo volume sob a manta. Arrancou-a num gesto violento e viu uma comprida haste de ferro; numa extremidade desta havia uma empunhadura de couro desgastado e na outra uma esfera cravejada de espinhos. Assombrou-se com a descoberta. Aquela era a arma que o Cavaleiro Sombrio utilizara em vida para esmagar seus inimigos e que se tornara seu símbolo de guerra: a maça-estrela.

A maça estava bem conservada e Rarnar imaginou que deveria estar protegida por algum tipo de encanto ou maldição. Recordou-se das inúmeras vezes em que o xamã o advertira sobre as ameaças do mundo sobrenatural e resistiu à tentação de ter a arma para si. Olhou em volta; não havia mais nada naquela câmara – ou nas outras que já tinham explorado – que justificasse perder outro dia ali. Estava ansioso para retornar à tribo e desejava que o tempo os permitisse partir logo. Como odiava aquelas malditas tempestades!

Escutou passos apressados no corredor e viu um de seus subordinados aproximando-se com uma expressão de espanto no rosto monstruoso.

– Encrenca, encrenca, encrenca! Temos que cair fora! Encrenca demais pra gente!

Urrou ferozmente, exibindo presas poderosas e calando o recém-chegado.

– Diga duma vez qual é o problema!

– Fui checar a fonte dos estrondos, como ordenou. O tremor derrubou as portas, todas elas. Fui checar as novas passagens e ouvi vozes. Não estamos sós. Vi três deles: um anão, um halfling e… o terceiro parecer ser drow!

Rarnar arregalou os olhos. Escutara direito? Se fosse verdade, estavam realmente encrencados. Certa vez lhe disseram que um drow era capaz de derrotar dez dos melhores guerreiros de sua tribo com os olhos vendados! Contudo, algo não cheirava bem. O que ele fazia ao lado de um anão e um halfling? Não podia pensar num trio mais inusitado.

O instinto o aconselhava a fugir enquanto ainda tinha chance, mas a razão o impedia; sabia que a covardia lhe custaria a posição na tribo que tanto cobiçava. Não podia permitir que a tumba e o cadáver do Cavaleiro Sombrio ficassem à mercê de invasores, especialmente sendo um deles quem era. A situação não era tão desesperadora quanto parecia e talvez até pudesse aproveitar-se dela para obter ainda mais prestígio junto aos seus.

– Onde está Grardur?

– Na sala de morte, vigiando o corredor principal.

Um plano nasceu em sua mente.

– Vamos nos juntar a ele. Emboscaremos os invasores na sala de morte.

– Mas e quanto ao drow?

– Mataremos primeiro! Eles não sabem de nós, temos uma boa chance… não vamos desperdiçar!

****

– Espero que estejam satisfeitos! Avisei que perambular por aí seria perigoso!

Rhístel e Meldeau escutavam a bronca com um ar distraído, o primeiro cuidando de limpar uma gosma esverdeada que empesteava seu florete e o segundo lustrando um anel. Os três estavam de volta à câmara das portas.

– Não me lembro do bom anão mencionar cabeças com asas de morcego! – retrucou o halfling.

Vargouille.

Olhares recaíram sobre o meio-drow, um repleto de desconfiança, o outro de curiosidade.

– Aquela criatura. Vargouilles são seres de outro mundo, muito cruéis e letais. As vítimas de seu beijo se transformam num deles em pouco tempo. Tivemos muita sorte.

– Por Brandobaris, que horror! Aquilo queria me beijar? E eu teria me tornado aquilo? Que nojo! Mas como você sabe disso?

– O mal reconhece seus semelhantes.

Fora Taldor quem alfinetara. Rhístel sustentou o olhar provocador do outro. Mais uma vez coube a Meldeau intervir, apaziguador.

– Ei, estamos vivos, isto é que importa!  E graças ao Rhís aqui, a perdição dos vargouilles! Além disso, nossa ousadia foi recompensada! Vejam que lindo anel eu achei!

– Achou? Onde? Não dentro do sarcófago, espero! Não sabe o quanto pode ser perigoso profanar um túmulo? Não tem juízo, baixote?!

Ignorando a censura do outro, o halfling ergueu o anel contra a luz da lamparina, avaliando-o.

– As gravuras são tão bonitas! Será que é mágico?

A carranca de Taldor deu lugar a uma expressão de curiosidade ao ver o anel dançar por entre os dedos do outro. Aquela mudança repentina não passou despercebida pelo meio-drow. As rugas logo retornaram e, sacudindo a cabeça, o anão se afastou na direção da passagem central.

– Bá! Qualquer um vê que não passa de um anel comum! Nem sequer é de um metal valioso!

Meldeau pareceu desapontado, mas guardou o anel consigo assim mesmo. Então a voz poderosa falou novamente:

– Escutem bem, estranhos: as portas estão destruídas e não temos como bloquear estas passagens. A tempestade ainda vai demorar a passar. Não sabemos o que mais tem por aí, então é melhor-

– É melhor explorarmos mais! Sim, vamos descobrir o que há por aí!

Interrompido pelo tom descontraído, Taldor se virou a tempo de ver o pequenino desaparecendo pela segunda passagem lateral. Atônito, ele vociferou:

– Que diabos há de errado com esse halfling?! Ele quase foi transformado num varoile há pouco! Não aprendeu nada?!

Rhístel teria rido da reação se não estivesse preocupado com a atitude sempre inconsequente do amigo. Precisavam ter uma conversa séria. Contudo, por ora, não permitiria que ele vagasse sozinho pela tumba. Era incrível como Meldeau parecia aprender devagar e esquecer rápido o que aprendeu.

Aquela câmara era semelhante à outra, mas, ao invés de um sarcófago, havia uma pequena arca, postada no centro. Agachado diante dela, a figura do halfling remexia os bolsos à procura de suas ferramentas. Rhístel e Taldor testemunhavam tudo de pé à porta.

– Que pensa que está fazendo?

– O que o bom anão sugeriu: explorando o lugar! Aposto que há algo valioso aqui!

– Não disse para explorar nada! Temos que ficar de olho nas passagens até a tempestade passar, isso sim! Já disse que não é seguro vagar por tumbas!

O meio-drow avaliou o lugar: as pegadas diminutas no piso empoeirado indicavam que ninguém além do amigo estivera ali. Preocupou-se ao notar estranhas reentrâncias nas paredes.

– O anão tem razão, Mel. Talvez seja melhor se afastar daí.

Pedindo paciência com um gesto rápido de mão, Meldeau puxou um conjunto de peças de ferro intricadas e deitou-se diante da arca. O tilintar que se seguiu indicou que ele ignorara solenemente as advertências. Alguns segundos depois, ele falou, eufórico:

– Está destrancada, mas não posso abrir ainda. Tem uma armadilha aqui.

– Mais uma razão pra deixá-la onde está!

– Relaxe, meu bom anão, eu posso desarmá-la. Entendo do assunto. Ora, em minha terra natal eu costumava caçar grandes feras somente com minhas armadilhas. Na verdade, lembro-me agora da vez em que capturei um korac, a grande fera azul de duas cabeças, usando só algumas cordas, isca e estacas de madeira!

Taldor bufou em descrença, Rhístel riu por dentro.

Um estalido metálico soou.

– Pronto, está desarmada!

O halfling largou as ferramentas de lado e abriu a arca. Somente ao ouvir o som inequívoco de mecanismos de disparos ecoando detrás das paredes é que o meio-drow compreendeu o propósito das reentrâncias. Dardos de madeira saltaram ao mesmo tempo de todos os lados à procura de alvos. O trio mal teve tempo de reagir; cada um buscou proteger-se da melhor maneira que pôde.

Ouviu-se um grito de dor e o som de madeira chocando contra pedra. Depois silêncio.

– Acabou?

Nenhum outro dardo saiu das paredes.

– Excelente trabalho, mestre armadilheiro*!

A voz grave veio acompanhada de um gemido. Arrependido e temendo o pior, Meldeau correu em auxílio do anão. Rhístel manteve-se distante, observando. Então ele riu por dentro ao ver que o ferimento não era prejudicial, exceto, talvez, para o orgulho de seu portador, que fora atingido numa das nádegas.

Aliviado, Meldeau murmurou mil desculpas e ofereceu-se para fazer um curativo.

– Conheço diversos tratamentos. Na minha terra natal existem ervas curativas para muitos males. É uma pena que eu não tenha nenhuma aqui comigo, mas eu posso tentar estan-

Calou-se diante do olhar frio que recebeu. Afastando-se, Taldor murmurou algo sobre sua honra jamais permitir que lhe tocassem o traseiro! Certificando-se de que seu companheiro também estava bem, Meldeau correu em direção à arca novamente e apanhou seu conteúdo.

– Vejam que tesouro! Mais uma vez nossa ousadia nos recompensa!

O halfling exibiu uma bandana de couro, duas contas peroladas e uma sacolinha encardida.

– Nossa ousadia?! Tua inconsequência, baixote, nada mais!

Meldeau abriu a sacolinha. Sorrindo, ele retrucou:

– Ora! Imagino, então, que estas preciosas moedas de ouro devam ser minhas, estou certo?

– Fique com estas moedas malditas! Não quero nenhum tesouro resgatado de uma tumba!

Dando de ombros, o halfling assobiou para o meio-drow e jogou-lhe a bandana, dizendo:

– É muito grande para minha cabeça.

Rhístel notou com curiosidade os rebites de ferro que cravejavam a peça e decidiu guardá-la; ele poderia analisá-la mais tarde. Meldeau colocou as contas e suas ferramentas dentro da sacolinha e guardou esta num de seus bolsos, dizendo para o amigo:

– Podemos repartir o tesouro quando terminarmos a exploração, afinal, o anão não faz nenhuma questão dele.

– Não mesmo! E não haverá mais exploração! Vamos esperar a tempestade passar, já disse!

– Mas…

– Nada de “mas”, Mel. Sua curiosidade já nos atraiu problemas demais por uma noite. Teve o seu momento de explorador de tumbas, até já encontrou seu tesouro. Vigiaremos a passagem central até que o tempo melhore e possamos partir.

O novo protesto morreu nos lábios do halfling ao notar o semblante de Rhístel e o olhar duro do anão. Não entendia o porquê de tanta cautela. O que eles tanto temiam, afinal?

Continua…

* Nota do Autor: não encontrei a palavra armadilheiro no dicionário, mas já a li em alguns contos fantásticos. Por isso, eu tomei a liberdade de utilizá-la aqui para identificar o indivíduo que trabalha com preparação de armadilhas. Entendam como liberdade poética.

Uma palavra sobre a ambientação desta série

As histórias ocorrem no mundo fantástico de Faerûn, descrito no cenário de campanha de RPG Forgotten Realms (Reinos Esquecidos). Elas também foram inspiradas em diversos módulos de aventuras criados para o jogo Dungeons & Dragons (Masmorras e Dragões). Todos os direitos sobre estas marcas pertencem à editora Wizards of the Coast, não sendo minha intenção violá-los. Estes textos são uma ficção de fã (do inglês, fan fiction ou FanFic) e não objetivam qualquer lucro.

Para saber mais:

  1. Capítulo Anterior – Portas Abertas
  2. Reinos de Aventuras, histórias de fantasia: onde explico o modo como pretendo publicar esta série no blog.

Continue a escrever aqui.

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