7 coisas que aprendi – por Newton Rocha

Em uma iniciativa conjunta* entre os blogs Escriba Encapuzado e Vida de Escritor, T.K. Pereira e Alexandre Lobão convidam escritores para compartilharem suas experiências com os colegas de profissão, destacando sete coisas que aprenderam até hoje. Não interessa se você é iniciante ou veterano, se escreve poesias, contos, romances ou biografias, envie sua contribuição para esta série de artigos!

Neste post, a contribuição completíssima do professor de inglês, jogador dinossauro de RPG e escritor convidado Newton Rocha, o Tio Nitro.

  1. Mostre o que acontece ao invés de resumir!

    Essa é a regra básica da literatura contemporânea, o famoso “show, don’t tell” repetido infinitamente nos livros americanos de dicas para escritores. Eu gosto de traduzir essa frase para “mostre, não resuma”, que fica melhor do que “mostre, não narre”, pelos problemas do significado de narrativa no português.

    Aprender essa regra foi vital para minha evolução como escritor. Quando “mostramos” o que acontece em uma história, o leitor fica muito mais engajado na leitura. “Mostrar” significa colocar o leitor na pele do protagonista, dentro dos acontecimentos, que são narrados em “tempo real”, ou seja, um evento após o outro.

    Quando “resumimos”, fazemos um sumário do que aconteceu em determinado ponto na história. Os “sumários narrativos” são importantíssimos para unir cenas, dar prosseguimento na história e resumir eventos que não seriam interessantes de serem “mostrados”, de serem narrados momento a momento.

    O resumo narrativo uma ferramenta, mas não pode ser a parte principal de uma narrativa, é como um cimento que usamos para colar uma cena ou uma sequência de cenas a outra. Esse cimento ajuda a dar plausibilidade na narrativa, explicar o cenário, o contexto, etc., mas, para um romance contemporâneo comercial, o resumo narrativo deveria ser usado esporadicamente.

  2. Descubra que tipo de escritor você é.

    Existem várias maneiras de escrever um livro. Você pode improvisar a história à medida que escreve e editar e reescrever depois de tudo pronto, escrever improvisando em um dia e editar no dia seguinte para continuar a história, planejar e sumarizar a história inteira antes de começar a escrever a primeira versão, entre outros métodos de criação.

    Cada escritor possui a sua maneira própria e pessoal de escrever, e uma das tarefas mais difíceis é encontrar qual é a mais apropriada para você. Quando usamos um modo de criação que não encaixa com a nossa própria natureza, escrever vira um martírio.

    A minha sugestão é experimentar com as mais variadas formas de se escrever um livro até você encontrar o modo que funciona. No meu caso, quando crio contos e histórias pequenas, sigo mais a linha do “improvisador”, escrevendo a história sem nenhum planejamento prévio e reescrevendo várias vezes até chegar a um formato final.

    Ao escrever livros, inicialmente comecei a usar a mesma técnica que usava para contos, com resultados desastrosos. Depois de mais de 100 mil palavras escritas no modo “improvisador”, vi que um livro é muito diferente de escrever contos. Eu precisava se uma maneira mais eficiente, as narrativas do meu livro improvisado explodiram para as mais variadas direções.

    Eu teria que reescrever diversas vezes aquelas 100 mil palavras, sem ter certeza que teria um livro prestável no final. Na verdade ao improvisar, criei vários livros ao invés de um. Para evitar isso, resolvi aproveitar algumas das tramas e desenvolver uma nova estratégia para escrever livros.

    Hoje em dia, eu me considero um “planificador-improvisador”, crio primeiro um sumário curto da história, depois crio os personagens (com biografias, características psicológicas, ideias para a trama do livro, etc.). Depois volto para o sumário e vou expandindo-o, introduzindo novas tramas, novos personagens, indo e voltando tanto no sumário narrativo do livro quanto no meu guia de personagens, referências, etc.

    Tela do Scrivener, um ótimo programa para planejar livros.

    Nesse momento eu também faço pesquisas, que são muito necessárias, pois o meu gênero é fantasia medieval. Introduzo novas cenas, rearranjo a história, crio novos personagens até ter, no final de várias semanas, um detalhado sumário narrativo de toda a história, que muitas vezes chega a ter cem ou mais páginas.

    Leio e releio esse sumário até sentir que está na hora de escrever o livro. E mesmo quando estou escrevendo o livro com base no sumário narrativo de toda a história, novas ideias surgem, adiciono mais detalhes, arredondo mais os personagens, etc. e vou alterando o sumário narrativo de toda a história, para nunca perder de vista a visão geral da história.

    Esse foi o modo que eu encontrei, recomendo a cada escritor testar e desenvolver sua própria maneira de escrever livros. É um caminho árduo, mas recompensador.

  3. Escrever é 10% inspiração e criação e 90% transpiração, escrever e reescrever.

    Escrever é ralação. Não tem outra palavra para descrever. Se você quer escrever com qualidade, tem que escrever todos os dias, sem parar. Ou o maior número de horas semanais que conseguir.

    Ralação é escrever sobre tudo e sobre o nada, desenvolver sua capacidade de transformar em palavras aquilo que você vê, sente e experimenta. Testar estilos, modos de escrita, pontos de vista diferentes, metáforas, símiles e outras figuras de linguagem.

    Ler e reler o que escreveu para ir melhorando, e mostrar o que você escreveu para outras pessoas a fim de ver o impacto de sua escrita. Testar gêneros diferentes, experimentar formatos e tamanhos diferentes de texto, etc. Tudo isso faz parte da ralação.

  4. A Reescrita é que transforma a Escrita em Arte.

    Se pudesse resumir em uma palavra todas as dicas para escritores que li, seria “reescrever”. É a única maneira de lapidar o texto até que saia algo interessante. A primeira versão de um texto é como uma pedra bruta, algo com uma promessa de se tornar uma joia.

    Escrever é uma mistura de lapidação com carpintaria, arquitetura com decoração. E a reescrita é a sua ferramenta básica.

  5. Aprender as técnicas e os elementos que compõe a escrita ajuda a evoluir rapidamente.

    Existem técnicas para todos os elementos da narrativa de ficção. Conhecer os elementos narrativos como Ponto de Vista, Diálogos, Estruturação de Trama, Desenvolvimento de Arcos de Personagens, Tema, Estilo, Sonoridade, Voz, entre outros poupam muito tempo e sofrimento do escritor.

    Por muitos anos achei que bastava simplesmente escrever. Mas ao descobrir, aprender e praticar essas, consegui evoluir muito o meu texto. Existe pouca literatura sobre esses elementos no Brasil, e grande parte do que aprendi veio de livros importados.

    Atualmente tenho um canal no You Tube onde posto vídeos com dicas para escritores, a fim de espalhar mais esse conhecimento, de tão útil que eles estão sendo para mim.

    Para quem se interessar e souber inglês, recomendo o livro Writing Fiction for Dummies que dá uma ótima introdução a todas essas técnicas e elementos de um livro de ficção.

  6. Leia muito, leia os mestres, leia os antigos e os contemporâneos.

    Ler é vital para um escritor, é parte da profissão. Tento sempre gastar o mesmo tempo que eu passo escrevendo com a leitura de livros. E seleciono os autores com muito cuidado, para me inspirar e para analisar diferentes maneiras de escrever, diferentes estilos, diferentes vozes.

    Ler ajuda em todos os aspectos, melhora nosso vocabulário, inspira, estimula a escrever e a reescrever. E mesmo quando entro em depressão profunda ao ler algo fantástico, imaginando que jamais conseguiria escrever algo tão “fodástico”, eu uso essa depressão como estímulo para continuar escrevendo.

    Leia tudo que lhe passe pela frente. Eu costumo variar minha leitura entre autores antigos e contemporâneos, brasileiros e estrangeiros. Leio dentro do gênero de fantasia tanto quanto livros de outros gêneros. E toda vez aprendo algo novo, uma técnica nova, uma quebra de regras narrativas feita com maestria, novas metáforas e símiles impressionantes, etc.

    E a cada vez que leio me apaixono mais ainda com a literatura. E isso me estimula a escrever, para fazer parte dessa tradição de contação de histórias. Para mim não existe nada mais sublime do que isso.

  7. Escreva com inspiração e sem inspiração. Escreva sempre!

    Parte do aspecto “ralação” do escritor. Ficar esperando a musa, a inspiração, aparecer para escrever não funciona. Na minha experiência, a minha musa aparece, cria um incêndio na minha mente, me deixa empolgadíssimo com um projeto novo e depois de algumas semanas, ela desaparece, indo descansar em alguma praia da Bahia. E eu, com um livro para escrever, tenho que aprender a trabalhar sem ela.

    Todos os escritores que conheço passam por isso. Uma solução que encontrei é escrever todos os dias, na mesma hora (no meu caso, de 20:10 às 22:10, pois trabalho o dia inteiro). Com ou sem motivação, eu abro o meu livro-em-progresso e escrevo. Como eu trabalho com sumários narrativos, eu sempre tenho algo para escrever.

    Aprendi também a não me preocupar muito com a primeira versão de um texto. A primeira versão de qualquer coisa é sempre um lixo, disse Hemingway, e é verdade. Essa despreocupação ajuda a trabalhar sem a maldita musa, sem a inspiração inicial.

    Se na primeira versão de seu texto não surgiu nenhuma ideia brilhante, nenhuma metáfora interessante, nenhuma frase que irá fazer seu diálogo brilhar, não se preocupe. Coloque no papel o básico da história e deixe esses elementos para a hora da reescrita.

    Eu gosto de deixar um texto “de molho” dentro do cérebro, dando tempo para o inconsciente dar uma trabalhada nele. Quase sempre funciona. Eu digo “quase sempre” porque escrever é uma dança cega no caos da criação mental. Tem dias em que tudo dá certo e outros dias em que tudo dá errado.

    O importante é sempre sentar a bunda na cadeira e escrever alguma coisa, todos os dias. Desse jeito a musa vai aparecer mais vezes. Não a deixe criar uma pousada em Caraívas e sumir.

    E vamos escrever porque escrever é doido demais!

Sobre o autor

Newton “Tio Nitro” Rocha é escritor de literatura fantástica e autor de livros de RPG, além de professor de inglês.

Ele escreve frequentemente sobre literatura e dicas para escritores em seu blog Tio Nitro Doidimais Blog, e sobre RPG no NitroDungeon.

Ele também tem um vlog no YouTube com dicas para escritores iniciantes, resenhas de livros e dicas de RPG.

Veja a opinião de outros autores aqui e no Vida de Escritor!

* Projeto inspirado pela coluna “7 Things I’ve Learned So Far”, da revista Writer’s Digest.

Continue a escrever aqui.

7 respostas para 7 coisas que aprendi – por Newton Rocha

  1. […] …o Escriba Encapuzado me convidou alguns meses atrás para fazer parte de sua fantástica série de artigos “7 coisas que aprendi”. Eu fiquei muito feliz e honrado com o convite! O meu texto pode ser lido por completo lá… […]

  2. Muito obrigado pelos comentários!🙂

  3. Victor (Vctrop) disse:

    Boa, Tio Nitro!

    Pra quem acompanha o NitroDicas é apenas um resumo, mas são dicas valiosas.

    Abraços!

  4. BIG disse:

    Tio Nitro como sempre mandando bem!

    Dicas valiosíssimas que eu não conhecia e que com certeza me ajudarão a melhorar meu processo de escrita, quem sabe um dia tirando o amador da frente do escritor na minha bio!

    😀

  5. Dayana disse:

    Nossa, Newton, seu texto ficou muito bom.

    Gostei da parte que você falou sobre cada um ter seu jeito de escrever; muitas vezes tentamos adquirir um estilo que não é nosso e acabamos perdendo muita coisa.

    Beijos,
    Dayana.

  6. isaac-sky disse:

    😀

    Eu já conhecia o Newton do blog dele de RPG, mas não sabia que era escritor também. Excelentes dicas.

  7. Ed_Paul disse:

    Olá, Newton.

    Considero um dos melhores a aparecer por aqui.
    As outras dicas foram sensacionais, mas essas foram extremamente inspiradoras.

    Parabéns pelo texto, muito sucesso e que venham ótimos contos/livros.